O Rato Humano (Quella Villa in Fondo al Parco, 1988)

Em uma tarde chuvosa, quando eu ainda era uma criança saudável e tranqüila, resolvi sair para alugar uma fita. Ao chegar a locadora, deparei-me com um título na prateleira que atraiu minha atenção. A capa dizia: "não recomendável para pessoas impressionáveis". Uau! A fita estava um tanto empoeirada, é verdade, há muito esquecida entre tantas outras que ninguém mais alugava. Nem mesmo o atendente sabia de que o filme tratava. Ora, com todo aquele mistério envolvendo a película, seria, no mínimo, irresponsabilidade minha não levá-la para casa a fim de conferir. E foi o que eu fiz. Enfiei a fita no vídeo-cassete, joguei-me no sofá e comecei a ver O Rato Humano.

O longa era tão tosco, tão tosco, que, mesmo anos depois, detalhes não saíam da minha cabeça. Então, a tecnologia avançou e, graças à internet, consegui encontrar uma cópia com áudio em inglês e legendas em algum idioma asiático (assim, você já pode ter uma idéia de como é difícil encontrar essa porcaria). Assisti ao filme novamente e, após me mijar de rir com essa pérola classe B, parei e pensei que seria uma boa idéia tentar ressucitar o blog com um artigo sobre ele. Não que vá adiantar alguma coisa, uma vez que só umas duas pessoas devem ler as besteiras que escrevo, mas, pelo menos, fica a sensação de dever cumprido pela divulgação dessa bomba.

Fale a verdade: você já está se roendo (sem trocadilho!) de curiosidade para saber o que há de tão impressionante em O Rato Humano, né? Obviamente, é difícil esperar algo que preste de um título podre como esse e, como se não bastasse, o diretor Giuliano Carnimeo (escondido sob o pseudônimo Anthony Ascot), de westerns spaghetti como Eu Sou Sartana, conduz o longa como se este fosse um filmaço de horror digno do Cinema italiano da década de 80. Porém, me adianto. Melhor começar pelo começo (duh!).

O Rato Humano tem início na República Dominicana, com a narração em off de um cientista que desenvolveu um híbrido a partir de DNAs de um rato e de um macaco com o objetivo de ganhar o prêmio Nobel. Certo, não me perguntem qual o benefício que uma criatura dessas traria à humanidade, mas o mané achou que seria uma obra de gênio. Entretanto, a experiência de fundo de quintal resultou em um monstro violento e venenoso: um único arranhão seria capaz de exterminar suas vítimas com "leptospirose instantânea" (HAHAHA!). Certa noite, às vésperas de uma conferência em que o idiota apresentaria sua criação ao mundo, o híbrido foge de sua gaiola, espalhando morte na pacata vila de San Martin (sentiu o clima?).

Pausa! Antes de seguir em frente, gostaria de esclarecer um detalhe: o tal monstro violento e venenoso tem apenas 72cm (!!!) de altura e é interpretado por ninguém menos que Nelson de la Rosa, o menor ator do mundo, falecido em 2006 aos 38 anos. Agora, imagine uma criatura magricela de 72 cm tocando o terror em uma população inteira. Er...

Continuando! Corta para uma praia, onde o fotógrafo Mark (Werner Pochath) está realizando um ensaio com duas aspirantes a modelo, Marlis (a gostosíssima Eva Grimaldi) e Peggy (Luisa Menon, em seu único filme). Enquanto Mark faz um trabalho de porco (é ver para crer...), um cidadão observa as gostosas de longe, escondido no mato, e se torna a primeira vítima de Nelson do monstro em uma cena ridícula. O ataque ocorre off-screen, tudo o que vemos é o figurante com cara de quem está com dor-de-barriga e um filete de ketchup no pescoço, Nelson o monstro pendurado em suas costas. Enfim, as fotos continuam rolando até Marlis avistar um crânio de plástico vagabundo entre umas pedras. Apesar de assustado, o trio decide não ir à polícia e retorna para o hotel.

Cai a noite e Peggy pede um vestido emprestado a Marlis e sai para um encontro. Tudo parecia bem até o pneu do táxi que a conduzia furar em uma região deserta e absurdamente escura da cidade. Infelizmente, o motorista não possui um estepe, visto que era o terceiro (!!!) pneu furado naquele dia, e a única saída da moça é caminhar até um ponto de ônibus a 100m dali. No meio do caminho, Peggy ouve um som estranho que escapa de uma das residências e decide dar uma espiada, alcançando a janela bem a tempo de ver o corpo ensangüentado de uma coroa ser arrastado pelo piso. Subitamente, um gorducho surge sabe-se lá de onde e começa a persegui-la com uma faca na mão. É interessante ressaltar que, enquanto Peggy corre desesperadamente pela rua, o maníaco a segue em passos de formiga, sem o menor empenho. Aliás, para mostrar o quanto o cara é sinistro, Carnimeo dá um close nas mãos do sujeito, que picota o sapato que Peggy deixa para trás. Que medo!

Bem, se você não nasceu ontem, sabe que esse assassino psicótico e sádico, que não poupa nem mesmo um pobre sapato, entra em cena somente para assustar Peggy, de modo que ela faça algo estúpido e caia nas mãos de Nelson do monstro! Do monstro! Agora, coloque-se no lugar da imbecil coitada: você está em um bairro completamente deserto, com quilômetros de rua a sua disposição para fugir. Sendo assim, você simplesmente correria como louco(a) até encontrar ajuda, certo? Errado! Não seja idiota! É muito mais prático invadir uma casa abandonada e se esconder dentro de um armário velho, torcendo para que o homem não descubra seu esconderijo. O plano quase dá certo, não fosse o colar de Peggy arrebentar de repente e as pérolas fazerem o maior barulho ao tocar o chão, chamando a atenção do psicopata. Porém, o cara sequer tem tempo para concretizar seu ataque, já que Peggy mete o pé na cara do rato-humano, escondido sob uma pilha de roupas, e morre violentamente.

Segunda vítima despachada, entram em cena os inúteis heróis, o escritor Fred Williams (o canastrão David Warbeck, que estrelou diversos filmes italianos e trabalhou com Lucio Fulci em The Beyond) e Terry (Janet Agren, de Pavor na Cidade dos Zumbis, também de Fulci, e Os Vivos Serão Devorados), irmã de Marlis (lembram dela?), que voou até a Rapública Dominicana após receber a notícia de sua morte. Os dois, apesar de não se conhecerem, dividem um táxi na saída do aeroporto. Terry conta, impassível, que precisa ir ao necrotério identificar o corpo da irmã e Fred mostra ser um homem extremamente inconveniente, convidando-se para acompanhá-la. Acontece que, como bem sabemos, Marlis não está morta. O cadáver é de sua amiga Peggy e o inspetor que investiga o crime demonstra ser um completo idiota, pois deduziu que a moça seria Marlis devido apenas à cor dos cabelos (tanto Peggy quanto Marlis são loiras) e pelo vestido emprestado que ela usava na ocasião. Sequer lhe passou pela cabeça procurar os documentos da vítima ou, na falta deles, checar as impressões digitais e buscar informações no hotel, afinal, se ele sabia da existência de uma, não tinha como não saber da outra! Não sei quanto a você, mas eu ficaria puto da vida! Terry tem um rápido bate-boca com a polícia, Fred dá um esporro básico no inspetor e os dois vão embora. Em seguida, descobrem que Marlis e sua equipe estão desaparecidos há três dias, desde que seguiram para a selva a fim de fotografar. Após uma breve conversa na piscina do hotel, em que Fred aparece de sunga e... sapatos (!!!), o escritor arrasta Terry para a cena do crime, onde pretende usar sua imaginação para reconstituir o que realmente aconteceu na noite do assassinato.

Durante a reconstituição, Carnimeo brinda o espectador com um susto falso vergonhoso. Você, certamente, já viu um sem-número de vezes situações em que os protagonistas escutam um ruído e, ao investigarem, são surpreendidos por um gato. Esse mesmo artifício é empregado aqui, no entanto, é possível notar que algum contra-regra esteve segurando o animal o tempo todo e, assim que os atores se aproximaram, simplesmente arremessou o bicho na direção deles de qualquer jeito (HAHAHA!). Enfim, Fred também informa que Peggy não morreu devido ao ataque, mas sim de ataque cardíaco (leptospirose instantânea?) e lança o mistério no ar.

Enquanto isso, na selva (leia-se: um parque com trilhas pavimentadas, grades de contenção, etc.), Peggy e sua equipe, formada por Mark e uma mulher chamada Monique, realizam um ensaio fotográfico para lá de esquisito. A razão pela qual o trio ficou afastado da cidade por tanto tempo jamais é explicada, visto que não interessa. Não demora muito para que os três sejam surpreendidos por outro cadáver, fugindo para a vila mais próxima em busca de ajuda. A cidade, porém, está deserta e o espectador, próximo do clímax do filme, em que o impiedoso minimonstro matará geral, começando por Monique, que só dá as caras no longa para virar comida de rato.

Creio que minha descrição até aqui tenha sido o suficiente para você perceber a merda maravilha que é essa película. O responsável pela trama é Dardano Sacchetti (sob seu pseudônimo habitual, David Parker Jr.) que, convenhamos, a despeito de não possuir uma carreira das mais brilhantes, escreveu bons roteiros como os de Demons e A Catedral, ambos de Lamberto Bava. Em O Rato Humano, Sacchetti apela para diálogos imbecis e situações absurdas, além de buscar a todo custo que o espectador engula que Nelson de la Rosa em trapos, garras e dentadura seja uma criatura genuinamente ameaçadora (se fosse um mestre Splinter cheio das manhas do kung fu, quem sabe...). Quando Monique é atacada dentro de um quarto, por exemplo, Mark e Marlis correm para ajudá-la. Marlis pretende entrar com ele, no entanto, o fotógrafo dá esporro: "Esqueça! Aqui fora é muito mais seguro!", esquecendo que os três estão em uma casa abandonada em uma vila deserta. Devo ser mesmo muito burro, uma vez que seria capaz de jurar que deixar a moça sozinha do lado de fora não seria a melhor opção. Em outro momento, Marlis se torna a única sobrevivente do massacre e tenta usar uma caminhonete para fugir, sendo surpreendida pelo rato-humano. Vejam só, ao invés de correr pela estrada, dar um bico na cabeça do monstro, cuspir nele, sei lá, a retardada corre para dentro da casa e se tranca na cozinha!

Ah, e antes que eu me esqueça, para que desenvolver os personagens se, em um rápido diálogo, ficamos sabendo que Terry tem 29 anos, mora com o pai em Washington e sua irmã Marlis é a ovelha negra da família? Aliás, a relação entre Fred e Marlis é a coisa mais esquisita que já presenciei: os dois se encontram por acaso e ficam juntos o resto do filme como se fossem grandes amigos. Eu, hein...

Agora, voltemos à direção de Giuliano Carnimeo, comentada no 3º parágrafo desse artigo. Bem... é péssima! Carnimeo tenta imitar na cara-dura alguns planos típicos de Lucio Fulci, como closes nos olhos ou no rosto de vítimas apavoradas, e ainda insere o mesmo superclose ridículo em um único olho (!!!) do monstro umas 387 vezes ao longo do filme a fim de criar suspense, porém o resultado é risível. Os ataques da criatura são constrangedores, resumindo-se a de la Rosa sobre o bobo da vez, sacudindo os braços pequeninos de qualquer maneira. Consigo até imaginar Carnimeo ligando a câmera e pedindo ao ator que imite um rato-humano assassino. A trilha sonora de Stefano Mainetti (do infame Zombi 3) também não ajuda. Além de tocar a todo instante, destrói qualquer clima que o diretor poderia estabelecer, pois simplesmente não encaixa na atmosfera de um filme de horror.

Diante disso, a constatação que fica é que O Rato Humano é aquele filme perfeito para ser visto com os amigos, de preferência com o pote cheio. Ainda há uma cena de nudez totalmente gratuita de Eva Grimaldi, que Giuliano Carnimeo procurar enquadrar de todos os ângulos possíveis. Portanto, providencie a cerveja, junte a galera e divirta-se. Ou morra de medo... HAHAHA!

O Rato Humano (Quella Villa in Fondo al Parco, Itália, 1988)
Duração: 82 minutos
Diretor: Giuliano Carnimeo
Argumento: Dardano Sacchetti
Roteiro: Dardano Sacchetti
Edição: Vincenzo Tomassi
Música: Stefano Mainetti
Fotografia: Roberto Girometti
Elenco: David Warbeck (Fred Williams); Janet Agren (Terry); Eva Grimaldi (Marlis); Luisa Menon (Peggy); Werner Pochath (Mark); Nelson de la Rosa (Rato-Humano); Anna Silvia Grullon; Pepito Guerra; Victor Pujols; Franklin Dominguez



Petrópolis, 15 de Janeiro de 2008

Terror em Silent Hill (Silent Hill, 2006)

Silent Hill é um dos melhores e mais horripilantes jogos que já tive o prazer de conferir, e olha que isso não é pouco vindo de um game geek feito eu. Lembro-me bem de quando era moleque e me trancava no quarto, com as luzes apagadas, apenas para sentir todos os pêlos do meu corpo se arrepiarem e me borrar de medo enquanto trilhava meu caminho pela cidade fantasma e fritava os miolos para resolver os enigmas que surgiam no decorrer do jogo. Por isso, sempre sonhei em ver Silent Hill nas telonas, pois sabia que, nas mãos certas, a história teria tudo para ser um filmaço de horror para fã nenhum botar defeito. E quando fazer filmes baseados em jogos de sucesso virou moda, minhas esperanças de que isso acontecesse só aumentaram. Aí, veio a notícia.

Foi uma longa espera. Acompanhei cada notícia relacionada à produção de Terror em Silent Hill e, inicialmente, fiquei satisfeito ao constatar que o diretor Christophe Gans (do mediano O Pacto dos Lobos) estava fazendo a lição de casa direitinho. Gans conferiu cada jogo da série, atento a todos os detalhes, uma dedicação notável e ao mesmo tempo necessária, visto que o cara certamente sabia que o crucificariam caso o resultado fosse uma porcaria. Tudo foi feito com extremo cuidado e, quando o filme estreou nos cinemas, lá estava eu, ansioso para... broxar? É, broxei. Mas permitam que eu me explique!

Primeiramente, dizer que o filme é ruim apenas porque a trama não é 100% idêntica ao jogo é simplesmente ridículo. Esse foi o comentário que mais li/ouvi desde que Terror em Silent Hill foi lançado. Aliás, esse é o comentário que mais se lê/ouve quando qualquer filme baseado em uma fonte externa (livros, quadrinhos, jogos) é lançado. Ora, trata-se de uma a-dap-ta-ção e as pessoas precisam enfiar na cabeça que mudanças são necessárias. Christophe Gans e o roteirista Roger Avary (de Regras da Atração) fizeram o mais importante: respeitaram a atmosfera do jogo e tentaram bolar uma trama que seguisse a mesma linha. O problema é que, lamentavelmente, Avery foi infeliz na hora de finalizar o roteiro.

A trama é simples: Sharon da Silva (a expressiva Jodelle Ferland, do recente Os Mensageiros) é uma criança que sofre de sonambulismo e, enquanto dorme, menciona insistentemente uma pequena cidade chamada Silent Hill. Seu pai, Christopher (o sempre competente Sean Bean, o Boromir de O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel), acredita que a menina precisa ser internada para receber tratamento, porém sua mãe, Rose (Radha Mitchell, de Eclipse Mortal), crê que a solução está no lugar que Sharon vê em seus sonhos. Assim, decide levar a filha até o local e, no caminho, sofre um acidente de carro, perdendo os sentidos. Quando acorda, Sharon está desaparecida e Rose parte em busca da filha na cidade fantasma, sem saber que as coisas estão prestes a ficar muito piores do que ela possa imaginar.

A primeira meia hora de Terror em Silent Hill é impecável. Muitos elementos legais do jogo foram aproveitados (algumas cenas ficaram praticamente iguais) e Gans conseguiu estabelecer o clima tenso e de isolamento com eficiência, auxiliado pela bela fotografia em tons de cinza de Dan Laustsen, que também colaborou com ele em O Pacto dos Lobos, outro filme esteticamente fabuloso. Além disso, Laustsen também foi feliz ao contrastar com eficiência não somente os dois mundos que existem dentro da cidade de Silent Hill, mas também o mundo exterior. É uma pena, portanto, que a partir do segundo ato o longa comece a afundar. As criaturas bizarras saem de cena, dando lugar a um grupo de fanáticos religiosos que destróem completamente o suspense que, até então, havia funcionado muito bem. Além disso, a subtrama que envolve Christopher e o policial Thomas Gucci (Kim Coates) é totalmente descartável e serve apenas para desviar a atenção do espectador.

Felizmente, os atores não afundam junto com o barco, o que, se não eleva a qualidade do filme, pelo menos acaba servindo de consolo. Sean Bean dispensa comentários, pois sempre se mostra competente, mesmo em pequenos papéis. Radha Mitchell mostra que tem condições de carregar um grande filme sozinha e a química entre a jovem Jodelle Ferland ela é bem legal. Enquanto isso, a bela Laurie Holden realiza um bom trabalho como a policial Cybil Bennett, e confesso que fiquei puto com o destino ingrato da personagem. Os efeitos especiais também foram bem realizados. Vale ressaltar que muitas criaturas que aparecem no decorrer do longa foram "interpretadas" por bailarinos, tornando os movimentos mais realistas e, conseqüentemente, dando mais realismo às cenas (o momento em que Rose se depara com um grupo de enfermeiras, por exemplo, é genial). Gans e sua equipe só apelam mesmo no final, quando ocorre um verdadeiro massacre bem idiota regado a CGI.

Resumindo, Terror em Silent Hill é um filme maneirinho, nada mais. Faltou um pouco mais de cuidado com a trama, que ainda guarda alguns furos, principalmente em relação à aparência dos personagens de Kim Coates e Alice Krige. Porém, ainda não perdi as esperanças. A cidade-fantasma de Silent Hill ainda dá muito pano para manga, desde que se preocupem em fazer algo superior e não um filmeco medíocre cujo objetivo seja somente faturar uma grana em cima dos fãs da série de jogos. É verdade que a segunda opção é a mais provável, no entanto, há muitos cineastas talentosos e ambiciosos espalhados por aí. Então, quem sabe?


Terror em Silent Hill (Silent Hill, Canadá/França, 2006)
Duração: 127 minutos
Diretor: Christophe Gans
Argumento: Baseado nos jogos da Konami
Roteiro: Roger Avary
Edição: Sébastien Prangère
Música: Jeff Danna; Akira Yamaoka
Fotografia: Dan Laustsen
Direção de Arte: Elinor Rose Galbraith; James McAteer
Elenco: Radha Mitchell (Rose da Silva); Sean Bean (Christopher da Silva); Laurie Holden (Cybil Bennett); Deborah Kara Unger (Dahlia Gillespie); Kim Coates (Thomas Gucci); Tanya Allen (Anna); Alice Krige (Christabella); Jodelle Ferland (Sharon/Alessa)

Petrópolis, 4 de Novembro de 2006

Memórias de um Assassino (Salinui Chueok, 2003)

Com exceção de Jogos Mortais e, vá lá, suas seqüências razoáveis, qual bom filme sobre assassinos em série foi lançado nos últimos anos pela indústria cinematográfica estadunidense? Aquele thriller sem graça do Phillip Noyce chamado O Colecionador de Ossos? Quem sabe, aquela bosta protagonizada pela Ashley Judd, A Marca? Bem, dizem que Zodíaco, ainda inédito por aqui, do David Fincher é um filmaço, mas esse só poderei conferir em junho. Não há dúvidas: o melhor longa-metragem do subgênero serial-killer da última década saiu em 2003, na Coréia do Sul, e chegou a terras tupiniquins com 4 anos de atraso, direto para as prateleiras das locadoras sem qualquer divulgação e está fadado a cair no esquecimento caso pessoas como eu não o divulguem. Não que isso faça qualquer diferença. É impressionante como muita gente ainda se recusa a assistir a filmes importados do Oriente por puro preconceito, mesmo que a crítica (profissional ou não) os recomende com louvor. Mas isso já é outro assunto e esta introdução já está grande demais.

Dirigido por Bong Joon-ho (do ótimo O Hospedeiro), Memórias de um Assassino é baseado em uma história real, que aconteceu na província de Gyunggi, na Coréia do Sul, em 1986. O corpo de uma moça foi encontrado em uma vala em um enorme campo. Suas mãos estavam amarradas às costas, sua cabeça permanecia coberta por sua calcinha e havia sinais de estupro. Dois detetives locais são designados para o caso e, quando um segundo cadáver aparece, um detetive chega de Seul para ajudá-los a solucionar os crimes. Assim, os três dão início a uma tumultuada e difícil investigação enquanto novas vítimas vão surgindo para o desespero das autoridades.

A partir daí, começamos a testemunhar como a polícia de uma cidade pequena, sem qualquer experiência em crimes desse tipo, comete um erro atrás do outro. A cena do crime está sempre repleta de gente, uma vez que as autoridades não conseguem conter os curiosos, os peritos demoram muito a aparecer no local e evidências importantes são destruídas devido à falta de cuidado. Os detetives fazem qualquer coisa para mostrar serviço e sair bem na foto, desde forjar provas a torturar inocentes para que eles confessassem os assassinatos. Falta-lhes técnica e sutileza. A única pessoa sensata e realmente esperta, o detetive forasteiro, é boicotado pelas falhas do sistema, além de esbarrar o tempo inteiro na inteligência de um assassino que não deixa rastros ou pistas que possam entregá-lo.

O elenco dá um show à parte, porém, embora todos sejam competentes, quem brilha mesmo é a dupla de policiais Park Doo-Man (o excelente Song Kang-ho, também de O Hospedeiro) e Seo Tae-Yoon (o igualmente excelente Kim Sang-kyung). O primeiro, um homem arrogante que acredita ser capaz de identificar criminosos apenas com o olhar e, ao mesmo tempo, extremamente ingênuo, garante boas risadas com suas interpretações (por que a perícia jamais encontra pêlos pubianos nos cadáveres?). Desde o início, ele faz de tudo para aparecer e mostrar que é o tal, e é legal vê-lo amadurecer à medida que novos corpos vão surgindo e ninguém sabe mais qual caminho seguir. Já o segundo é exatamente o oposto de Doo-Man: introspectivo e de mente afiada, Yong-koo é o único a perceber detalhes que ninguém mais enxerga, conseguindo, inclusive, identificar uma 3ª vítima antes que seu corpo seja encontrado. Além disso, sua obsessão em capturar o assassino fica cada vez mais evidente ao longo do filme, no entanto, os motivos que o levaram a Gyunggi jamais são explicados, o que o torna um personagem misterioso e, conseqüentemente, interessante.

Por último, a ótima direção de Bong Joon-ho, que também é co-autor do roteiro, escrito a seis mãos. Apesar de ter mais de duas horas de duração, o que sempre é tempo demais para um filme de suspense, Memórias de um Assassino consegue segurar o espectador no sofá o tempo inteiro. Joon-ho constrói um clima tenso e depressivo, acentuado pela fotografia fria de Kim Hyeong-gyu, e narra uma investigação rica em detalhes, que não chega a deixar tudo mastigado e faz com que mergulhemos na trama como se fôssemos parte da equipe. Além disso, o diretor acrescenta humor na medida certa, o suficiente para aliviar um pouco a tensão e não estragar o suspense. As cenas que envolvem ataques do assassino são filmadas com maestria, abusando de sombras e do desconforto proporcionado pela chuva. E tudo isso culmina em um final frustrante, mas que funciona justamente por fugir do lugar-comum.

É isso. Acredito que eu tenha dado bastantes motivos para você correr para a sua locadora e pegar Memórias de um Assassino. Espero que você vença o seu preconceito bobo e aceite minha recomendação. Se ainda não se convenceu, confira os comentários deixados no IMDb ou as resenhas publicadas no Rotten Tomatoes. Nada mal para um Cinema que, até meados da década de 90, era sinônimo de porcaria, não acha?



Memórias de um Assassino (Salinui Chueok, Coréia do Sul, 2003)

Duração: 131 minutos

Diretor: Bong Joon-ho

Argumento: Baseado em uma história real

Roteiro: Bong Joon-ho; Kim Kwang-rim; Shim Sung Bo

Edição: Kim Seon Min

Música: Tarô Iwashiro

Fotografia: Kim Hyeong-gyu

Direção de Arte: Ryu Seong-hie; Yu Seong-hie

Elenco: Song Kang-ho (Park Doo-Man); Kim Sang-kyung (Seo Tae-Yoon); Kim Roe-ha (Cho Yong-koo); Song Jae-ho (Shin Dong-shul); Byeon Hie-bong (Koo Hee-bong); Ko Seo-hie (Kwon Kwi-ok); Park No-shik (Baek Kwang-ho); Park Hae-il (Park Hyeon-gyu)

Petrópolis, 9 de Maio de 2007
Atualização: Zodíaco é o melhor filme sobre um serial-killer dos últimos anos. Crítica em breve.

Ratos - A Noite do Terror (Rats - Notte di Terrore, 1983)

Se você já ouviu falar de Ed Wood, sabe que ele é considerado o pior cineasta de todos os tempos. Se nunca ouviu falar, agora já sabe. No entanto, se você não é um verdadeiro fã do Cinema, tampouco fã do Cinema de horror, é pouco provável que você saiba que, cruzando o Atlântico, em 1931, nascia a versão "macarrônica" de Wood, um cara chamado Bruno Mattei. Mattei começou sua carreira como editor, decidindo se enveredar pelos caminhos da direção após trabalhar com o espanhol Jess Franco em sua versão não-autorizada de Drácula, em 1970. O rapaz não entrou com o pé direito e passou alguns anos se alternando entre as duas atividades, até que resolveu investir em filmes sexploitation (que, como o nome diz, contém bastante sexo e putaria) e ganhou um certo reconhecimento. Então, os filmes de horror italianos chegaram ao auge com nomes como Ruggero Deodato, Lucio Fulci e Lamberto Bava e, aproveitando a carona, Bruno Mattei entrou na roda, mesmo sem qualquer experiência no gênero.

Desnecessário dizer que Mattei só fez, e ainda faz, porcaria. Porém, seus filmes são tão ruins, tão ruins, que acabam se encaixando naquela velha categoria de "bons de tão ruins" e o diretor alcançou status de cult ao longo dos anos. Entre seus longas mais conhecidos, estão Predadores da Noite (Hell of the Living Dead ou Night of the Zombies, de 1981) e Ratos - A Noite do Terror (Rats - Night of Terror, de 1983), ambos roteirizados pelo igualmente incapaz e grande amigo de Mattei, Claudio Fragasso. O primeiro é uma tremenda picaretagem que chupa, sem a menor vergonha na cara, vários momentos de Despertar dos Mortos, clássico dirigido por George A. Romero em 1978. O segundo, objeto de nossa análise, seria a versão de Mattei de A Noite dos Mortos-Vivos, também de Romero, com ratos mutantes no lugar de zumbis, como o próprio diretor declarou em uma entrevista para o lançamento do DVD nos Estados Unidos. Essas duas "obras-primas" foram lançadas lá fora pela Anchor Bay em um único disco, sem cortes. As fitas VHS nacionais são raridade, portanto, se você é doente mental como eu e pretende ter essas pérolas em sua coleção, só adquirindo as cópias importadas. Enquanto isso não acontece, divirta-se junto comigo com as inúmeras baboseiras que irei descrever no decorrer deste pequeno artigo.

Ratos - A Noite do Terror se passa em 225 d.B. (depois da Bomba). Bem, esse novo e ridículo calendário foi implantado depois que o planeta foi completamente destruído e não sobrou nada além de areia, ruínas e... iguanas? Os sobreviventes se refugiaram no subsolo, mas alguns resolveram voltar à superfície, tornando-se renegados e sendo batizados de Novos Primitivos. Tudo isso é explicado por um narrador logo no início, porém esses detalhes supercriativos não têm qualquer importância; a trama poderia se passar tanto no Rio de Janeiro dos anos 30 quanto na África do Sul durante o Apartheid que não faria diferença nenhuma. Somos, então, apresentados aos nossos "heróis", um grupo de motoqueiros com roupas da última moda (destaque para o líder e seu lencinho vermelho amarrado no pescoço) que, após circular pelo deserto com veículos e combustível tirados sabe-se lá de onde, embalado por uma trilha sonora horrível, chega às ruínas de alguma cidade. Não é preciso ser um gênio para deduzir que a maioria está no filme apenas para acabar no estômago dos pequeninos roedores, de modo que seus nomes não interessam. Porém, irei apresentá-los apenas como curiosidade:
  • Kurt (Richard Raymond/Ottaviano Dell'Acqua) - líder da gangue, com uma pose de machão deprimente.
  • Diana (Cindy Leadbetter) - a gatinha, namorada de Kurt.
  • Duke (Henry Luciani) - o rebelde, se veste como um general do século XVIII.
  • Torres (Alex McBride/Massimo Vanni) - a julgar pelo corte de cabelo, a barba e os músculos, queria ser sósia de Chuck "o Rei" Norris. Coitado.
  • Deus (Fausto Lombardi) - um cara muito esquisito que provavelmente inspirou Tong Po, o vilão de Kickboxer - O Desafio do Dragão. Aparentemente, é o (cof!) intelectual do grupo.
  • Video (Richard Cross) - um idiota qualquer.
  • Chocolate (Janna Ryan/Geretta Giancarlo) - a única coisa que a difere dos outros é o fato de ela ser negra. Aliás, devo confessar que achei extremamente criativo batizá-la com o nome Chocolate.
  • Noah (Chris Fremont) - cresceu em um mundo devastado, mas é especialista em botânica.
  • Lucifer (Christoph Bretner) - um rapaz esquentadinho.
  • Lilith (Moune Duduvier) - feia, esquisita e veste capa e maiô, mais parecendo uma super-heroína baixa-renda.
  • Myrna (Ann-Gisel Glass) - garota chata, ô.
Assim que chegam à cidade, os bundões dão uma rápida (bem rápida mesmo) conferida no local e entram em um velho hotel à procura de mantimentos. E não é que encontram? Caixas e mais caixas de alimentos fresquinhos, prontos para serem consumidos. Gostaria de saber quais os conservantes que as fábricas usaram na produção para que eles durassem 225 anos. Além disso, a cena em que a gangue ataca a comida é simplesmente horrorosa. Não irei descrevê-la com detalhes, porém confesso que senti vergonha pelos "atores", que devem ter passado a sair de casa com sacos de papel na cabeça depois disso. É ver para crer! No local, há também uma espécie de estufa cheia de plantas, um purificador de água, alguns cadáveres e... ratos, claro.

A noite cai e a galera se recolhe depois de queimar os defuntos. Lucifer e Lilith transam avidamente em um saco de dormir na frente de todos até serem expulsos por Kurt. Após a única cena do filme que tinha o propósito de ser engraçada, mas não é, os dois vão tirar o atraso em outro lugar. Quando Lilith finalmente cansa, Lucifer faz pirraça, mostra o pinto para a câmera e acaba no bar, enchendo a cara. Enquanto isso, Noah se torna a primeira vítima dos roedores com um voraz apetite por carne humana e a turma descobre que corre perigo.

A partir daí, o que já estava ruim fica ainda pior. Bruno Mattei e seu companheiro Fragasso, que co-dirigiu o longa, nos brindam com cenas memoráveis, no pior sentido da palavra, e alguns dos diálogos mais idiotas já escritos desde que o Cinema foi inventado. Com direito a ratos voadores, verdadeiros ninjas que fariam inveja ao grande mestre Splinter, os dois tentam convencer o espectador de que é possível um grupo de seres humanos armados até os dentes ser trucidado por pequenos animais dentuços. E, como se não bastasse, Mattei ainda inclui ridículos close-ups em ratinhos "ameaçadores" e filma os ataques com meia dúzia deles no chão em meio a um monte de cocô e mais uma dúzia sendo jogada em cima do elenco, provavelmente com a ajuda de baldes. Aliás, é incrível constatar que todos ali estão levando a coisa a sério, como se o público fosse ter outra reação que não fosse se mijar de rir de tanta baboseira. Principalmente, no momento em que quatro dos intrépidos heróis abandonam seu refúgio para buscar água e vemos o exército de ratos de brinquedo se aproximando enquanto Kurt ordena que Duke abra a porta em nome da humanidade! Para se ter uma idéia das barbaridades que escapam da boca do elenco (que ficam ainda piores devido à dublagem em inglês), que tal alguns exemplos? Em certo momento, a gangue encontra um velho computador e Video tenta, sem sucesso, fazê-lo funcionar, acreditando se tratar de um video game. Revoltado, dá um faniquito e Deus intervém: "Não é um video game. É um computador."; então, Video retruca, inconformado: "Maldição! Nunca encontro um video game de verdade! Droga de máquina, precisa de um chute nas bolas!". Mais tarde, diante da morte de três companheiros, Duke questiona a liderança de Kurt e busca assumir o comando da gangue, mas Chocolate interrompe a discussão: "O que há com vocês? Os dois ficaram loucos? [...] Estamos cercados por ratos prontos para nos atacar! Precisamos ficar unidos a todo custo, é tudo o que temos!". Para finalizar, tente segurar o riso quando Deus, com a maior pose de sujeito culto, começar a discursar sobre os ratos, afirmando que leu em um livro que, antes de o planeta ser destruído por cientistas loucos, os bichos viviam em esgotos sob as grandes cidades.
Infelizmente, é impossível dissecar Ratos - A Noite do Terror por completo, pois eu precisaria de uns três dias para rever o filme com calma, anotar todas as idiotices e diálogos imbecis e colocar tudo em um único artigo. Também vale ressaltar que, por mais que você ache graça nas maravilhas aqui citadas, é muito melhor assistir a essa tralha com os próprios olhos e chorar de rir com essa bomba monumental. Péssima trama, péssimo elenco, péssima direção, péssima edição, péssima trilha sonora (e muito mal empregada, diga-se de passagem), ou seja, tudo de que um filme precisa para ser adorado pelos fãs de bagaceiras desse calibre. A picaretagem de Bruno Mattei é tamanha que os animais vistos em cena sequer são ratos, e sim porquinhos-da-índia pintados de cinza. Preciso dizer mais?
Se um dia o planeta mergulhar em uma guerra nuclear, certifique-se de carregar bastante chumbinho consigo. Afinal, já dizia o velho ditado: é melhor prevenir...

Ratos - A Noite do Terror (Rats - Notte di Terrore, Itália/França, 1983)
Duração: 93 minutos
Direção: Bruno Mattei
Argumento: Bruno Mattei
Roteiro: Claudio Fragasso; Hervé Piccini
Edição: Gilbert Kikoïne
Música: Luigi Ceccarelli
Fotografia: Henry Frogers; Franco Delli Colli
Direção de Arte: Charles Finelli; Maurizio Mammi
Elenco: Ottaviano Dell'Acqua (Kurt); Geretta Giancarlo (Chocolate); Massimo Vanni (Torres); Richard Cross (Video); Ann-Gisel Glass (Myrna); Jean-Christophe Brétigniere (Lucifer); Fausto Lombardi (Deus); Henry Luciani (Duke); Cindy Leadbetter (Diana); Chris Fremont (Noah); Moune Duvivier (Lilith); John Gayford (voz no gravador)
Petrópolis, 21 de Abril de 2007

A Casa do Lago (The Lake House, 2006)

Histórias de amor têm um apelo universal. Por mais brega e repetitiva que seja, alguém, em algum lugar do planeta, se desmanchará com ela. Eu, por outro lado, odeio pieguice. A falta de originalidade é até possível aturar, desde que seja compensada de alguma forma, mas pieguice não há como engolir (daí o meu ódio à atual fase do pop rock nacional que, ao que parece, é composto por adolescentes que possuem sérios problemas psicológicos). Sendo assim, fiquei surpreso ao chegar ao fim de A Casa do Lago e constatar que gostei do longa, um filme leve e bonitinho, com um roteiro bem escrito e bem amarrado, direção segura e elenco eficiente.

Baseado em um longa sul-coreano de 2000, dirigido por Lee Hyun-seung, A Casa do Lago narra a história da médica Kate Forster (Sandra Bullock, que continua uma gracinha), que se muda da casa do lago em que mora para um apartamento no centro de Chicago. Porém, antes de sair, Kate deixa uma pequena carta para o novo morador, a fim de colocá-lo a par de algumas informações sobre a casa. Alex Wyler (Keanu Reeves), um arquiteto que está trabalhando na construção de um novo condomínio, recebe a correspondência e fica confuso com o seu conteúdo, decidindo, assim, enviar uma resposta para esclarecer algumas dúvidas. Até que os dois descobrem que a caixa do correio em que depositam suas cartas funciona como uma espécie de fenda no tempo: Kate está em 2006, enquanto Alex vive em 2004.

O roteiro do premiado David Auburn (do interessante A Prova) cumpre muito bem a sua proposta, a despeito da premissa absurda. Entretanto, a trama também é favorecida pela ótima direção do argentino Alejandro Agresti, auxiliado pelo eficiente trabalho de edição de Alejandro Brodersohn e Lynzee Klingman. As cenas que ilustram as trocas de correspondências entre Kate e Alex, por exemplo, são muito bem boladas, apresentadas como se os dois personagens estivessem lado a lado, conversando em tempo real, não escrevendo cartas. Dessa forma, acompanhar a rotina daquelas duas pessoas solitárias e constatar que sua carência é tamanha ao ponto de ambos se apegarem a alguém que nunca viram antes se torna algo até agradável (principalmente devido à belíssima fotografia de Alar Kivilo) e, eventualmente, passamos a torcer para que logo dêem um jeito de se encontrarem. Ainda assim, algumas situações me pareceram forçadas, como o mistério que envolve a cadelinha Jack (no fim das contas, de onde ela veio?) e o encontro dos protagonistas na festa de aniversário de Kate.

O elenco também se sai muito bem. Sandra Bullock exibe seu carisma habitual (quem não se apaixonaria por ela?) e constrói uma personagem introspectiva que esconde em seu íntimo uma grande vontade de ter alguém ao seu lado, mas cujo medo de se expor impede que ela transponha os obstáculos que a vida lhe reserva. Enquanto isso, devo confessar que Keanu Reeves realizou um bom trabalho na pele de Alex Wyler, algo que merece aplausos, uma vez que uma boa atuação do bonitão é mais difícil de se ver do que homenzinhos verdes de Marte. O resto do pessoal tem pouco tempo em cena para dizer a que veio, no entanto, devo dizer que apreciei o trabalho de Ebon Moss-Bachrach, que viveu o irmão de Alex, Henry Wyler (porém, seu penteado era ridículo de dar dó).

Em suma, A Casa do Lago vale uma conferida. Não é uma senhora história de amor, mas é rápida e rasteira, 105 minutos indolores. Só o fato de eu ter assistido ao filme de madrugada, deitado no escuro, e não ter pegado no sono já demonstra que o longa merece ao menos uma chance.

A Casa do Lago (The Lake House, EUA, 2006)

Duração: 105 minutos

Diretor: Alejandro Agresti

Argumento: Baseado no roteiro de Kim Eun-Jeong e Yeo Ji-na

Roteiro: David Auburn

Edição: Alejandro Brodersohn; Lynzee Klingman

Música: Rachel Portman; Prince; Paul M. van Brugge

Fotografia: Alar Kivilo

Elenco: Keanu Reeves (Alex Wyler); Sandra Bullock (Kate Forster); Christopher Plummer (Simon Wyler); Ebon Moss-Bachrach (Henry Wyler); Willeke van Ammelrooy (Mãe de Kate); Dylan Walsh (Morgan); Shohreh Aghdashloo (Anna Klyczynski); Lynn Collins (Mona); Mike Bacarella (Mulhern); Cynthia Kaye McWilliams (Vanessa)

Petrópolis, 18 de Novembro de 2007

Comando Para Matar (Commando, 1985)

Quem não assistiu a Comando Para Matar quando era moleque e não vibrou com o grande Schwarza baixando o cacete em um sem-número de figurantes com bigodes falsos, bom sujeito não é. Quando o filme foi lançado, em outubro de 1985, eu sequer era nascido, mas me diverti horrores com essa pérola nas diversas ocasiões em que a Globo a reprisou. Agora, com a "Edição Definitiva" lançada em DVD pela Fox (entre aspas, pois essas edições definitivas sempre acabam dando lugar, no futuro, a edições novas), tive a oportunidade de ver o longa novamente e, assim, constatar se ele realmente funcionaria com um marmanjo de 21 anos. Embora já soubesse a resposta, visto que Comando Para Matar possui fãs de todas as idades espalhados por aí, precisava ver com meus próprios olhos, uma vez que, infelizmente, fazia anos que havia assistido ao longa pela última vez, apesar de ele continuar sendo reprisado da televisão de tempos em tempos até hoje. O resultado foi o esperado, claro: Comando Para Matar é realmente um filme divertidíssimo, que merece ser visto e revisto por quem gosta de filmes de ação.

O longa narra a história do coronel aposentado John Matrix (Arnold Schwarzenegger), que se muda para uma casa isolada a fim de se livrar da vida conturbada que levava e criar sua filha Jenny (a hoje gostosíssima Alyssa Milano, a Phoebe do seriado "Charmed", ainda criança) em paz. Entretanto, Matrix acaba percebendo que as coisas não são assim tão simples para um ex-matador do governo estadunidense. Um a um, seus homens, também ex-combatentes, começam a ser mortos e não demora muito para os assassinos chegarem até ele. Mas eles têm outros planos para Matrix: querem que ele vá para Val Verde, um pequeno país sul-americano, para matar o presidente que havia ajudado a eleger no passado. Como um incentivo, Jenny é seqüestrada com a promessa de ser libertada quando a missão fosse cumprida.

Inicialmente, o argumento desenvolvido por Jeph Loeb (um conceituado roteirista de histórias em quadrinhos) e Matthew Weisman (que não possui nenhum trabalho de destaque) era bem diferente e deixava a ação de lado, se concentrando mais na história de um homem que havia desistido da violência em nome de sua filha pequena. Porém, Schwarzenegger, que tinha estrelado o clássico O Exterminador do Futuro, de James Cameron, estava em alta e o produtor Lawrence Gordon queria um filme que combinasse com o físico imponente do ator. Sendo assim, o roteiro foi reescrito pelo experiente Steven E. de Souza (de seriados como "O Homem de 6 Bilhões de Dólares" e sucessos como 48 Horas e, anos depois, Duro de Matar) para se adequar especialmente ao Arnoldão. A direção foi oferecida a Mark L. Lester (de Massacre no Bairro Japonês, que não faz algo que preste há muitos anos) e o projeto ficou pronto para sair do papel.

Lester e de Souza não perdem tempo: em poucos minutos, o filme agarra o espectador pelo braço e não solta mais. Comando Para Matar é um daqueles longas feitos exclusivamente para machos, com ação desenfreada, frases de efeito e nenhuma complexidade. Tudo o que se vê em cena é propositalmente exagerado e, em nenhum momento, o filme se leva a sério, o que deixa bem claro que seu objetivo é apenas divertir. Em 91 minutos, vemos Schwarzenegger exterminar seus inimigos com facas, pedaços afiados de madeira, metralhadoras, fuzis, granadas, uzis, machados, escopetas, pistolas e com as próprias mãos. A contagem de cadáveres chega a 81! Além disso, Comando Para Matar ainda possui diversos erros de continuidade, o que acrescenta um certo charme a produção e deixa tudo ainda mais divertido.

Porém, a alma de Comando Para Matar é mesmo o grandalhão Arnold Schwarzenegger. Ao contrário da maioria, que senta a lenha no cara, sempre o considerei um ator carismático. As frases que ele solta no decorrer do filme, sempre com a cara amarrada, são hilárias e o ataque realizado no final, com o cara coberto de armas de todos os tipos da cabeça aos pés (cena satirizada em Máquina Quase Mortífera) é divertidíssimo. O resto do elenco também realiza um bom trabalho. Rae Dawn Chong, que interpreta a comissária de bordo Cindy, serve como um ótimo contraponto ao durão John Matrix e a química entre os dois proporciona momentos bastante engraçados. Do outro lado, temos Dan Hedaya, que pouco tem a fazer como o ex-ditador Arius, e o australiano Vernon Wells, que com sua interpretação exagerada e seu figurino ridículo, constrói um personagem interessante na pele do vilão Bennett.

Concluindo, Comando Para Matar é puro entretenimento, um filme perfeito para reunir os amigos e vibrar com as peripécias absurdas do Cel. John Matrix. Matrix, junto com os outros Johns (Rambo e McClane), foi responsável por inúmeras ótimas tardes e noites na minha infância.
Comando Para Matar (Commando, EUA, 1985)
Duração: 91 minutos
Diretor: Mark L. Lester
Argumento: Jeph Loeb; Matthew Weisman; Steven E. de Souza
Roteiro: Steven E. de Souza
Edição: Glenn Farr; Mark Goldblatt; John F. Link
Música: James Horner
Fotografia: Matthew F. Leonetti
Elenco: Arnold Schwarzenegger (John Matrix); Rae Dawn Chong (Cindy); Dan Hedaya (Arius); Vernon Wells (Bennett); James Olson (Gal. Franklin Kirby); David Patrick Kelly (Sully); Alyssa Milano (Jenny Matrix); Bill Duke (Cooke); Drew Snyder (Lawson); Sharon Wyatt (Leslie); Michael Delano (Forrestal); Bob Minor (Jackson); Michael Adams (Harris); Gary Cervantes (Diaz); Charles Meshack (Henriques)
Petrópolis, 2 de Novembro de 2007

Homem-Aranha 3 (Spider-Man 3, 2007)

Finalmente! Foram 3 anos de espera por esse momento! Lá estava eu, pouco antes da primeira hora da tarde, dividindo a fila com alguns nerds e um sem-número de pirralhos que haviam acabado de sair do colégio. A ansiedade era tamanha que eu sequer tinha almoçado, mas não sentia a mínima fome. Fui o 6º a entrar, escolhi um lugar bem no meio e, com sorte, a sala não estava lotada. As crianças não calavam a boca. Tive medo de que continuassem com as gracinhas após o início do filme e comecei a imaginar quem eu esganaria primeiro. As luzes se apagaram. Trailers. Tá Dando Onda; Piratas do Caribe: No Fim do Mundo. Então, o logo da Columbia Pictures surge na tela, acompanhada por aquela música tão familiar. Entram os créditos de abertura (muito bem bolados por sinal) com cenas dos dois primeiros filmes. A hora havia chegado.
A pergunta é: valeu a pena esperar? Não exatamente; assistir ao longa é uma experiência frustrante, pois, por mais que ele empolgue, é inevitável compará-lo ao resto da série e imaginar que Sam Raimi e sua equipe tenham pisado na bola dessa vez. Nada que comprometa tanto assim a trilogia como um todo, mas, ainda assim, pisaram feio na bola.

No 3º capítulo da série, Peter Parker encontra um equilíbrio entre sua vida pessoal e seu alter-ego. O aracnídeo finalmente se tornou alguém amado e respeitado pela população e o rapaz parece ter superado seus problemas psicológicos, investindo em sua relação com Mary Jane e aplicando-se aos estudos, além de continuar como fotógrafo free-lancer no Clarim Diário. Porém, dizem que alegria de pobre dura pouco. Não demora muito para Peter Parker permitir que a fama lhe suba à cabeça e ele, muitas vezes, acaba deixando Mary Jane em segundo plano. As estruturas de seu relacionamento se abalam, principalmente depois que uma nova mulher, a belíssima Gwen Stacy, entra em sua vida. E, como se não bastasse, seu melhor amigo Harry Osborn continua a ameaçá-lo, um jovem e ambicioso fotógrafo surge em seu caminho, um simbionte alienígena usa seu corpo como hospedeiro e o verdadeiro assassino de seu tio aparece, trazendo à tona um forte sentimento com o qual ele precisa lidar se não quiser enlouquecer.

Acredito que já tenha dado para notar a quantidade de personagens novos que Sam Raimi incluiu na saga. Esse foi o seu erro. O excesso de gente na trama e, conseqüentemente, o excesso de subtramas são o grande problema de Homem-Aranha 3, o que já era de se esperar. Para começar, foi completamente desnecessário encaixar Gwen Stacy na história a essa altura do campeonato. Nos quadrinhos, Gwen foi a segunda namorada de Peter Parker (Betty Brant, a secretária de J. Jonah Jameson, foi a primeira) e seu primeiro grande amor, sendo assassinada por Norman Osborn/Duende Verde. Se Raimi deu início à trilogia com o amor que Parker sente por Mary Jane, por que colocar a loirinha agora? Apenas para criar um suposto triângulo amoroso extremamente artificial e que não acrescenta nada à trama. E, por falar em Peter e Mary Jane, as cenas que envolvem o casal são de dar dó de tão ruins. Todo aquele amor, toda aquela química presente nos outros capítulos da série desapareceu e, no fim, o espectador está cagando para o futuro deles. Se ficarem juntos, ótimo. Se não ficarem, dane-se. Simplesmente, sou incapaz de entender o que deu na cabeça desse pessoal.

Em segundo lugar, os vilões. Ora, três é um número bastante alto para um filme de 140 minutos, de modo que, com exceção de Harry Osborn, que já conhecemos desde o primeiro filme, os personagens são muito mal desenvolvidos. O drama de Flint Marko (o ótimo Thomas Haden Church, de Sideways - Entre Umas e Outras), por exemplo, soa forçado e acaba servindo apenas para uma pequena lição de moral e uma baboseira melodramática no fim da projeção. Já Venom (Topher Grace, que, confesso, me surpreendeu), talvez o vilão mais popular nas histórias do Homem-Aranha e alegria da molecada, aparece muito pouco e ainda possui um destino ingrato. Por isso, espero que Sam Raimi tenha percebido que dar ouvidos aos fãs nem sempre é a melhor coisa a ser feita, já que a presença de Eddie Brock no filme estava fora de cogitação até os fanáticos começarem a reclamar. Culpa também do produtor Avi Arad, que enxergou no vilão a chance de levar mais pirralhos ao cinema e encher mais ainda o bolso de dinheiro. A justificativa para o ódio que Brock nutre por Parker, no entanto, foi plausível, apesar de meio forçada. Ainda assim, Venom não só merecia, como também precisava de um filme só dele para ser desenvolvido de maneira satisfatória e Eddie Brock já deveria ter dado as caras nos longas anteriores.

Felizmente, se o resto não compensa esse escorregão, pelo menos não decepciona. Os efeitos especiais estão ainda melhores (Homem-Areia, sensacional!) e o pau come solto em cenas de ação de tirar o fôlego, principalmente, no primeiro confronto do aracnídeo com o novo Duende Verde, agora com um visual mais "moderninho" e, confesso, até interessante. O elenco continua bem. A maioria ali já conhece seus personagens o suficiente para estar segura em seus papéis e Tobey Maguire novamente surpreende ao encarnar um Peter Parker mais sombrio e babaca, a despeito do corte de cabelo que todos insistem em comentar. Enquanto isso, Topher Grace, que não é nada parecido com o fortão Eddie Brock dos quadrinhos, realiza um trabalho muito bom e realmente convence na pele de Venom, mesmo tendo pouquíssimo tempo em cena. Só lamento mesmo por Thomas Haden Church e Bryce Dallas Howard (de A Dama na Água). Aquele pouco tem a fazer como Flint Marko e essa, apesar de estar M-A-R-A-V-I-L-H-O-S-A como Gwen Stacy, é, como já disse, uma personagem descartável, sumindo de cena assim que cumpre seu propósito.

Concluindo, Homem-Aranha 3 só não me decepcionou porque minhas expectativas já não eram muito grandes. Desde o início, já esperava que o excesso de personagens prejudicasse o filme e foi exatamente o que aconteceu. Além disso, o roteiro apela para o melodrama em diversos momentos, o que é completamente desnecessário. Tudo bem, tem que rolar um pouco de emoção e tal, mas forçar a barra para o espectador chorar é foda. Os momentos dramáticos tão bem elaborados e encaixados no segundo filme deram lugar a sentimentalismo barato e diálogos bobos. O roteiro ainda apela para coincidências absurdas e mexe naquilo que já estava resolvido, somente para deixar tudo mal resolvido no fim. Para quê? Não sei. Como fã do herói, de Sam Raimi e de Homem-Aranha e Homem-Aranha 2, fiquei triste com o desfecho da trilogia e espero que a saga do aracnídeo na telona fique por aqui. Porém, com a bilheteria que o filme irá alcançar e, conhecendo o olho grande dos produtores... sabem como é.
Homem-Aranha 3 (Spider-Man 3, EUA, 2007)
Duração: 140 minutos
Diretor: Sam Raimi
Argumento: Sam Raimi; Ivan Raimi
Roteiro: Sam Raimi; Ivan Raimi; Alvin Sargent
Edição: Bob Murawski
Música: Christopher Young
Fotografia: Bill Pope
Direção de Arte: Christopher Burian-Mohr; David F. Klassen; David Swayze; Dawn Swiderski
Elenco: Tobey Maguire (Peter Parker/Homem-Aranha); Kirsten Dunst (Mary Jane); James Franco (Harry Osborn/Novo Duende); Thomas Haden Church (Flint Marko/Homem-Areia); Topher Grace (Eddie Brock/Venom); Bryce Dallas Howard (Gwen Stacy); Rosemary Harris (May Parker); J.K. Simmons (J. Jonah Jameson); Elizabeth Banks (Betty Brant); James Cromwell (Capitão Stacy); Theresa Russel (Emma Marko); Dylan Baker (Dr. Curt Connors); Bruce Campbell (Maître)

Petrópolis, 4 de Maio de 2007